Fisiologia: líquido pleural
O pulmão é recoberto pelas pleuras visceral (mais porosa) e parietal (mais inervada e vascularizada). Durante a respiração, uma pleura desliza sobre a outra, sem atrito, porque existe uma formação de líquido entre as duas. Em condições normais, a mesma quantidade de líquido produzida é também absorvida, e essa quantidade varia de acordo com a superfície corporal. A pleura parietal é a que mais secreta líquido no espaço pleural, enquanto a pleura visceral, por ser mais porosa, é a que mais absorve. Algumas afecções são capazes de determinar um derrame pleural, que é quando há perda da homeostase da produção/absorção de líquido pleural. Recordando a fisiologia, o sangue é bombeado para o leito arterial, onde há alta pressão hidrostática, e essa pressão maior dentro dos vasos faz com que haja extravasamento de líquido para o interstício. Por outro lado, no leito venoso, a pressão hidrostática diminui, e o líquido é reabsorvido para os vasos, a fim de voltar ao coração.
ICC
Uma causa importante de derrame pleural é a insuficiência cardíaca, onde o sangue que chega no coração esquerdo não é bombeado de maneira efetiva, e com isso, passa a haver acúmulo retrógrado e progressivo de líquido no pulmão. Esse líquido extravasa, atinge o espaço pleural e forma o derrame, que normalmente é unilateral, mas em casos mais graves pode ser bilateral. O tratamento desse derrame pleural inclui oxigênio, fármacos que melhorem a contratilidade miocárdica, e diuréticos que eliminem o líquido em excesso. Não é necessário drenar esse derrame, a não ser que o paciente esteja descompensado (em acidose, por exemplo) ou muito dispneico.
Sd nerótica e cirrose
a pressão oncótica, gerada pela albumina produzida pelo fígado, se altera quando há hipoalbuminemia – por exemplo na síndrome nefrótica (alteração da membrana basal renal e proteinúria) e na cirrose hepática (diminuição da produção proteica). Em todas as três afecções já vistas (insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica e cirrose hepática) não é preciso intervir para retirada do líquido do derrame, o tratamento é apenas clínico. A drenagem, chamada toracocentese de alívio, só é necessária quando o paciente está dispneico, e retiramos a quantidade de líquido necessária para que o pulmão volte a expandir e o paciente saia do quadro de descompensação.
Transudato x Exudato
Nos derrames pleurais vistos até agora, não há acúmulo em excesso de proteína, e o líquido pleural que é retirado sai com um tom mais claro, do tipo água de rocha. Nesses casos, se dosarmos proteína, a quantidade estará abaixo de 3 g%, e o líquido é chamado transudato. Por outro lado, nas afecções que cursam com excesso de proteína, como tuberculose pleural, empiema, câncer de pulmão primitivo ou metastático, embolia e pneumonia, há acúmulo proteico (> 3 g%), e o líquido sai mais amarelado, sendo chamado de exsudato.
Pneumonia
Uma causa importante já mencionada é a pneumonia, que pode formar o derrame pleural pós pneumônico. A pneumonia inflama o pulmão, diminui a expansão dele na área da infecção, e o pulmão fica mais duro, que é o que chamamos de pulmão hepatizado. A pleura daquela região para de absorver líquido em decorrência dessa rigidez, formando o derrame. Se esse processo
infeccioso se mantiver, a infecção pode ultrapassar o limite da pleura visceral, se instalando dentro do espaço entre as duas pleuras e causando o empiema pleural. O líquido nesse caso pode vir com um tom bem amarelo, que chamamos de amarelo citrino. Portanto, mediante uma toracocentese em que o líquido pleural está de cor amarela, precisamos investigar a possibilidade de ser um derrame infeccioso.
Trauma
Por fim, como causa de derrame pleural, temos o trauma. Pode ser trauma de pulmão, pleura, costela, coração ou diafragma. Nesses casos pode haver formação de hemotórax, e ao realizar a drenagem, haverá saída de sangue. Se sair mais de 1500 mL existe sangramento de grandes vasos. Se sair mais de 200 mL em um período de 3h a lesão também é grave. Nesses dois casos, tem que abrir o paciente e intervir.
QUESTÃO DE PROVA: Existe um derrame pleural traumático que é gerado através da queda da própria altura, ou quedas simples como de bicicleta. Há ruptura do ducto torácico e forma-se o quilotórax, ou derrame pleural quiloso. O paciente começa com dispneia insidiosa, que frequentemente ele nem associa a essa queda, ou então o paciente é assintomático. Quando puncionamos, a coloração do líquido é esbranquiçada, porém bastante diluído, chamamos de cor de vasilha de leite lavado. Nesses casos temos que pedir a dosagem de triglicerídeos no líquido pleural. Acima de 120 mg/dL, significa que o paciente apresenta um quilotórax. Se o paciente não tem histórico de queda, pensamos em linfoma, porque as doenças linfoproliferativas também evoluem para quilotórax.
Clínica
DG
No exame físico há diminuição do murmúrio vesicular na ausculta em comparação com o pulmão sadio. No derrame pleural há expansibilidade reduzida, macicez a percussão e redução ou abolição do frêmito toracovocal.
De exames complementares temos a radiografia de tórax em PA (peito encostado no filme do raio-x), que é a incidência ideal nesses casos; e a radiografia em perfil (para avaliar parênquima pulmonar atrás da área cardíaca).
Se não for suficiente, podemos pedir ultrassonografia ou a tomografia, mas na maioria dos casos só a radiografia já é suficiente.
Depois de feita a toracocentese, podemos fazer a análise do líquido pleural, pedindo a bioquímica e a microbiologia.
Quando a suspeita é de pneumonia, temos que pedir LDH (aumenta quando há destruição celular, e acima de 1000, sugere empiema pleural). Outros indicativos de empiema são pH < 7,2, cultura para germes inespecíficos positiva e glicose < 60 mg (indica consumo intenso).
A citologia do líquido também é importante – no empiema o predomínio é de polimorfonucleares, e na tuberculose o predomínio é de mononucleares e linfócitos.
Ainda quanto a tuberculose, pedimos a cultura para BK (não dá para pedir o BAAR porque tuberculose pleural é paucibaucilar), e pedimos também o ADA (adenosina deaminase) – é um produto metabólico da degradação do bacilo na pleura, portanto, quando vier > 40, é extremamente sugestivo de tuberculose.
Por fim, na suspeição de alguma doença associada, como neoplasias em pacientes fumantes, pedimos broncoscopia.
Conduta no empiema
Quando o líquido vem purulento, ou amarelo citrino com as demais alterações discutidas (pH, ADA, presença de germes, etc.) chamando atenção para empiema, fazemos drenagem torácica fechada. Caso fizermos a drenagem e o pulmão não expandir, fazemos videotoracoscopia para retirar o excesso de fibrina e de secreção purulenta. Se isso não for feito, isso vai cronificar, o pulmão endurece e adquire consistência de sola de sapato, e não expande com facilidade, sendo que nesse caso só resolve com cirurgia aberta (retira-se dois fragmentos de costela, faz uma incisão na pleura e deixa que essas substâncias como a fibrina vão sendo eliminadas ao longo dos dias, depois fecha de novo). Por isso, é preciso intervir antes.
Nos pacientes com líquido pleural purulento ou amarelo citrino pedimos cultura (antes do ATB)
Os anaeróbios provocam odor ruim e são de diicil id na cultura, portanto, quando puncionamos e o líquido vem com odor ruim, ainda mais se associado a esse achado na cultura, pensamos nos anaeróbios.