Análise do Discurso (AD): definição básica
A AD estuda como os sentidos são construídos na linguagem e como refletem relações de poder, subjetividade e contexto social; olha para o que é dito, como é dito e o não-dito/pressuposto.
Por que AD é central na Psicologia?
Porque a linguagem participa da construção da identidade, media a percepção de si/do outro e orienta diagnóstico, intervenção e terapias.
O que a AD investiga concretamente?
Os enunciados em situação: quem fala, para quem, quando, onde, com que finalidade, sob quais regras sociais/ideológicas e quais efeitos de sentido produz.
“Metade de quem fala, metade de quem compreende” (ideia)
O sentido resulta do encontro entre a intenção do falante e a leitura do ouvinte; co-construção.
Sujeito na AD francesa
O sujeito é “interpelado” pela ideologia e fala a partir de posições; acredita ser origem do dizer, mas é atravessado por memória e formações discursivas.
Discurso e poder (Foucault)
Discursos não apenas descrevem o mundo; eles produzem regimes de verdade, normatizam condutas e distribuem quem pode falar/validar saberes.
AD aplicada a diagnósticos
Examinar como termos/critério “cortam” a experiência, que vozes legitimam o rótulo e que efeitos produzem (estigma, acesso, adesão).
AD em prontuário/relato clínico
Observar escolhas lexicais (atenuações, modalizações), pronomes (culpa/responsabilidade), metáforas e silenciamentos.
Ethos (Aristóteles) na Psicologia
Construção de credibilidade/identidade do terapeuta/pesquisador no discurso (tom, referências, postura ética).
Pathos (Aristóteles) na Psicologia
Mobilização da emoção/empatia para criar vínculo e facilitar ressignificação terapêutica.
Logos (Aristóteles) na Psicologia
Estrutura lógica/clareza de argumentos, coerência narrativa e fundamentação em evidências.
Ethos × Pathos × Logos: uso equilibrado
Intervenções eficazes combinam credibilidade (ethos), conexão emocional (pathos) e coerência/razão (logos).
Implicatura/pressuposto (noções úteis)
Implicaturas: sentidos sugeridos pelo contexto; pressupostos: conteúdos tomados como dados no enunciado (ambos relevantes para “não-dito”).
Linguagem como organizadora da subjetividade (AD2)
As palavras não são neutras; estruturam cognições/emoções e moldam percepções e comportamentos.
Saussure: signo linguístico
Significante (forma sonora/gráfica) + significado (conceito) unidos arbitrariamente; valor depende das relações no sistema.
Saussure: langue × parole
Langue = sistema social compartilhado; parole = uso individual na situação; AD olha para a parole situada sem perder o sistema.
Saussure e psicologia do sujeito
A identidade se negocia na parole sob regras da langue; o “eu” é co-construído na linguagem.
Marx: base/superestrutura na AD
A organização econômica molda ideologias e práticas discursivas; discurso carrega/naturaliza relações sociais.
Ideologia na linguagem (Marx/Pêcheux)
Aparece como “evidências” do senso comum (o “natural”); AD desnaturaliza e revela os interesses inscritos no dizer.
Naturalização do sofrimento (AD2)
Questão clínica: como mídia, família e instituições transformam sofrimentos em “normais” ou “patológicos” no discurso?
Vozes institucionais no setting
Regulamentos, protocolos e jargões orientam o que se pode dizer no consultório e como se registra a fala do paciente.
Variação linguística (Aula 01)
A língua é viva e varia por história, região, grupo social e situação; competência terapêutica inclui reconhecer essas variações.
Língua × Fala (Aula 01)
Língua = código abstrato; Fala/Discurso = realização concreta situada. Interpretação clínica precisa da competência linguística e discursiva.
Interpretação não é só “decodificar”
Experiências/expectativas ativam inferências; ler é construir hipóteses de sentido (atenção a vieses!).